domingo, 5 de dezembro de 2010

Pecados Inocentes

O cigarro é levado à boca por força do hábito. O vento brinca com seus cabelos ruivos. Praia, cigarros, um violão. Rock 'n' roll. Sex, drugs and beach. Bitch.

A espanhola. Com seu andar dançante, a espanhola é quente. Muy caliente. Inspirando sexo, a medida em que se aproxima o cheiro de luxúria fica mais forte. Eu gosto de música, ele disse. Ela tira o rádio da bolsa. Começa a dançar. Seu corpo, feito pro pecado, começa a se mexer sensualmente. Cobra venenosa, serpente gulosa, pronta pra destilar seu veneno. Veneno doce. Aqueles olhos de cigana, famintos, penetram o fundo da sua alma e parecem deixá-lo completamente nu. Seu olhar o despe sem pudor. Ela pega seu cigarro e o traga, como se estivesse tragando Tony. Os lábios gulosos não disfarçam sua sede. A fumaça separa suas bocas.

Uma mão máscula acaricia aquele rosto. O rosto de Tony. Os olhos dele são mais atraentes, penetram mais fundo. Os lábios dele são mais carnudos. Sua boca está sedenta, promete prazeres ocultos, prazeres proibidos. Ele queria usufruir o proibido. O corpo dele foi feito para Tony. O que podia fazer? Aquele corpo esculpido e másculo o atraía mais que o corpo quente e sinuoso da espanhola. A verdade é que o corpo dela não o atraía. Era sua alma, a culpada. Sua alma desejava a carne. Desejava um corpo idêntico ao seu

Não é o certo, diziam. Homem foi feito para mulher. Mulher para homem. Não é certo. Quem eles são para dizer o que é certo ou errado? Está na bíblia, diziam. Eu sou um pecador. Eu sou anormal. Eu sou um mutante. Eu sou uma vergonha. Os meus gostos são proibidos. A minha vontade é proibida. A sociedade dita seus gostos, suas preferências. Ela diz o que você deve enxergar, como deve agir. A sociedade dita o que você deve ser. Os monstros são os autênticos, os que assumem sua própria personalidade. Eles são errados, eles são pecadores. Porque não seguem o que a merda da sociedade diz ser certo. Perdoe-me, pai. Eu sou assim, mãe. Me perdoem se sou uma decepção. Um erro, talvez. Eu sou o que sou e não vou mudar. Nem esconder. Não vou deixar de ser autêntico por ninguém. Aceito a sina de ser o monstro, a anormalidade, a vergonha dessa tal sociedade. Hipócrita. Sociedade hipócrita.



Inspirado em uma cena de "Pecados Inocentes", drama dirigido por Tom Kalin.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Dois caminhos. Morte e vida. Inferno e céu.

Ar tenso. Palavras rasgadas explodem transformando-se em silêncio. Ela pode ouvir os dois corações batendo, juntos. Sempre juntos. Ele só queria uma palavra. Tão curta e simples, mas que poderia mudar o cheiro das rosas. Os olhos dele tentam encontrar os dela. Eles fogem. Olham para o horizonte, sem ver. Ele sabe que em seu pensamento há destroços, sofrimento, confusão, angústia. E era verdade. Ela se vê há um passo do abismo, prestes a cair.

Ficar um tempo sozinha no escuro. Sentir o gosto da dor, o gosto da separação. Como? Que bobagem, meu Deus! Por que a gente sempre quer experimentar a dor quando tudo vai bem? Seus olhos não suportam o peso de suas pálpebras, ela comprime os lábios e luta contra aquela dor que aperta o peito. Aperta, aperta, aperta e explode. Ela é vencida. Lágrimas teimosas escorrem por sua face e fogem. Fraca quando mais precisa ser aquela menina forte e fria.

Estava claro: ela tinha nada e ninguém até encontrá-lo. E ele se tornou sua fonte de vida. Era o motivo, motivação. Agora ela tinha que escolher entre duas pequenas palavras. Gigantescas naquele momento. Sim e não. Dois caminhos. Morte e vida. Inferno e céu. O "sim" deixaria sua vida escorregar por entre suas mãos como areia. Ela perderia o ar, perderia a vida. O "sim" roubaria tudo e deixaria para ela apenas a existência. Existir não é viver. E o "não". O "não", por mais negativo que fosse, manteria a sua fonte de água. A paz, a felicidade. Felicidade que teria defeitos vezenquando. Ou a todo instante.

Ele sabia o significado das lágrimas. Então seus braços enlaçam aquele corpo tão pequeno. Ela se viu minúscula diante do maior homem do universo. E suas lágrimas foram secadas por aquelas mãos tão compreensivas e tão queridas. Não. Eu não quero e não posso te deixar. Agora, era tudo doce. Não. Doce, bom pro coração. Não. Deixando doce o abraço, o beijo, o amor. Doce. Não. Será. Doce.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Canarinho


Liberdade. Seus olhos brilhavam acompanhando as coisas do outro lado, acontecendo naturalmente e sem nenhum mistério. Ou não: com mistérios que ele não podia ver ou não queria enxergar. E se a porta daquela gaiola se abrisse, abriria também todas suas portas, janelas, ele voaria até a liberdade. Liberdade? E então imaginava. Essa coisa que não conseguia entender. Tinha tanto medo de consegui-la mas não saber usá-la. Como um brinquedo complicado que vem sem as instruções.

Acontece que ele era canarinho, não pardal. Canarinho nasceu condenado à ficar preso pra sempre. E sabia que sua função era cantar, cantar, cantar. Ninguém nunca soube que ele sempre carregou consigo outro sonho. O de voar. Aquela vida não devia ser dele. Diabos! Quero ser pardal. Viver, voar para onde eu quiser, brincando com minha liberdade. Desaprendeu a cantar, o que não é bom. Passarinho bom deve cantar. Eu os orgulhava quando cantava. E então ele entendia que aquele não era o seu lugar. Mas era, tinha que ser, só não queria aceitar.

E ficava horas parado, aprisionado, observava, observava, observava, sem se mover.
- Mãe, esse passarinho tá triste.

- Claro que não, filhinho. Passarinhos não têm sentimentos como a gente.
Algum tempo depois ele não sonhava. Agora tudo era frio, rígido. Seu coração, seu corpo. Mas sua alma podia brincar de liberdade. O Canarinho não morreu de tristeza.