sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Canarinho


Liberdade. Seus olhos brilhavam acompanhando as coisas do outro lado, acontecendo naturalmente e sem nenhum mistério. Ou não: com mistérios que ele não podia ver ou não queria enxergar. E se a porta daquela gaiola se abrisse, abriria também todas suas portas, janelas, ele voaria até a liberdade. Liberdade? E então imaginava. Essa coisa que não conseguia entender. Tinha tanto medo de consegui-la mas não saber usá-la. Como um brinquedo complicado que vem sem as instruções.

Acontece que ele era canarinho, não pardal. Canarinho nasceu condenado à ficar preso pra sempre. E sabia que sua função era cantar, cantar, cantar. Ninguém nunca soube que ele sempre carregou consigo outro sonho. O de voar. Aquela vida não devia ser dele. Diabos! Quero ser pardal. Viver, voar para onde eu quiser, brincando com minha liberdade. Desaprendeu a cantar, o que não é bom. Passarinho bom deve cantar. Eu os orgulhava quando cantava. E então ele entendia que aquele não era o seu lugar. Mas era, tinha que ser, só não queria aceitar.

E ficava horas parado, aprisionado, observava, observava, observava, sem se mover.
- Mãe, esse passarinho tá triste.

- Claro que não, filhinho. Passarinhos não têm sentimentos como a gente.
Algum tempo depois ele não sonhava. Agora tudo era frio, rígido. Seu coração, seu corpo. Mas sua alma podia brincar de liberdade. O Canarinho não morreu de tristeza.