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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Canarinho


Liberdade. Seus olhos brilhavam acompanhando as coisas do outro lado, acontecendo naturalmente e sem nenhum mistério. Ou não: com mistérios que ele não podia ver ou não queria enxergar. E se a porta daquela gaiola se abrisse, abriria também todas suas portas, janelas, ele voaria até a liberdade. Liberdade? E então imaginava. Essa coisa que não conseguia entender. Tinha tanto medo de consegui-la mas não saber usá-la. Como um brinquedo complicado que vem sem as instruções.

Acontece que ele era canarinho, não pardal. Canarinho nasceu condenado à ficar preso pra sempre. E sabia que sua função era cantar, cantar, cantar. Ninguém nunca soube que ele sempre carregou consigo outro sonho. O de voar. Aquela vida não devia ser dele. Diabos! Quero ser pardal. Viver, voar para onde eu quiser, brincando com minha liberdade. Desaprendeu a cantar, o que não é bom. Passarinho bom deve cantar. Eu os orgulhava quando cantava. E então ele entendia que aquele não era o seu lugar. Mas era, tinha que ser, só não queria aceitar.

E ficava horas parado, aprisionado, observava, observava, observava, sem se mover.
- Mãe, esse passarinho tá triste.

- Claro que não, filhinho. Passarinhos não têm sentimentos como a gente.
Algum tempo depois ele não sonhava. Agora tudo era frio, rígido. Seu coração, seu corpo. Mas sua alma podia brincar de liberdade. O Canarinho não morreu de tristeza.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Me entende, me entende

Me entende, me entende
Eu preciso fugir
Preciso sumir
Pra longe, me entende

Não é que eu queira
Me afastar
Não é que eu queira
Me livrar

Eu preciso aprender
A me virar sozinha
Me entende
Compreende

Vai doer demais, eu sei
Mas viver, assim
A vida inteira eu tentei

Sempre soube
Que aqui não era meu lugar
Deixa, deixa pra lá
O que os outros vão pensar

Eu queria te levar comigo
Dentro de uma caixinha
Mas, amor, não dá
Me deixa, me deixa chorar

domingo, 20 de dezembro de 2009

O inferno é o nosso presente.

Quantas pessoas seguem seus caminhos incertos, cegas, dizendo sempre "olá". Como se nada fizesse diferença. Sou a única a enxergar? Não sabemos distinguir o certo do errado. Não, sim... os contrários fazem o mundo. Amor, desamor. Alegria, tristeza. Qual o contrário de solidão? O tempo, meu amigo, não existe. É a desagregação da matéria. Evolução-mutação de tudo. Talvez o Tempo seja mais um Deus inventado. Confiemos no que não podemos ver, nem tocar. Amor também é Deus. E Deus castiga às vezes. Castigo necessário. "Morrer de amor e continuar vivendo". Presos ao nosso egoísmo, enquanto "irmãos" continuam morrendo. A perda é necessária para aprendermos a dar valor às coisas. Mas nunca damos. Você sabe, sabe bem, que tentamos conseguir a paz fazendo a guerra. É tudo confuso, essa náusea constante. Saber que o inferno é o nosso presente.


Patrícia Campidelli.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A metade do limão?

Quarta fomos ao circo. Não vou dizer que estava horrível, como sempre faço. Eu quero perder essa fama de "rabugenta". Minha prima me chamou a atenção umas três vezes. Na primeira, eu estava com o celular. Na segunda, celular de novo. Na terceira, "Por que você não está rindo, Patrícia? Sua sem graça". Ela chamou minha atenção como se eu fosse uma criança malcriada. Você tem que fazer isso, é obrigada a rir num circo. Todos estão rindo, você também tem que rir. Mas eu simplesmente não achei engraçado. O palhaço era um palhaço. Eu achei mais engraçado aquela roupa de homem-aranha do malabarista, super coladinha e... "sençual". Sem contar que haviam uns caras sentados atrás que contaram o "espetáculo" inteiro. Acho que era o mesmo todos os dias, já que a platéia decorou as falas do palhaço. Falam que o palhaço e os demais são sem graça, mas foram todos os dias ao circo. E as meninas gritavam histericamente, todas as vezes que apagavam as luzes. Ou sempre tinha um idiota que ria escandalosamente fora da hora de rir (é, eu penso assim agora, tem a hora certa de rir). Se não gosta, porra, vai pra casa e fica lá assistindo alguma merda e se entupindo de comida. Ou se você está afim de se fazer de ridículo e tomar a cena do próprio palhaço, trabalhe na merda do circo. Eu fiquei com uma vontade quase que incontrolável de tomar aquela merda de microfone do locutor (que tinha uma voz irritante, ridícula que me dava nos nervos) e mandar todos tomar no cu. Eu cheguei a conclusão que não é necessário ir ao circo para rir um pouco. Eu prefiro rir das pessoas à minha volta. Eu prefiro rir desse mundo fútil em que vivemos. Não sei porque gastar dinheiro com circo, se os palhaços sempre estão por perto.

"Vou confessar: acho que nunca fui "feliz" ao pé da letra. Não me pergunte um momento em que estive realmente feliz. Não conheci a felicidade por inteiro, vi sempre pela metade. E os momentos de quase-felicidade são raríssimos. Nunca fico satisfeita, sempre falta alguma coisa. Pode dizer "Você será feliz quando encontrar sua metade da laranja". Ou encontrar a metade de um limão, quem sabe? Mas onde essa porra de metade se escondeu? Não estou tendo paciência de procurar debaixo de pedrinhas, da cama, dentro do meu guarda-roupa (E desejo que ela não esteja lá. Estaria mesmo perdida)... E, guarde o que te digo, ainda procurarei nos banheiros masculinos para me certificar, talvez lá estará: linda... ou feia, sei lá. Não, não tenho medo de sofrer. Mas se isso acontecer, posso dizer que sou bastante vingativa. Posso procurar a minha metade do limão até no inferno, posso até gostar do seu tridente e dos seus chifres pontudos e charmosos. A cor vermelha me atrai muito. Posso ser amante, mãe, escrava, irmã, amiga e seja lá o que for! Eu quero a felicidade-extrema como amante, nem que para isso eu pague com umas lágrimas... mas "fiado"."



Vão pro inferno!