
O cigarro é levado à boca por força do hábito. O vento brinca com seus cabelos ruivos. Praia, cigarros, um violão. Rock 'n' roll. Sex, drugs and beach. Bitch.
A espanhola. Com seu andar dançante, a espanhola é quente. Muy caliente. Inspirando sexo, a medida em que se aproxima o cheiro de luxúria fica mais forte. Eu gosto de música, ele disse. Ela tira o rádio da bolsa. Começa a dançar. Seu corpo, feito pro pecado, começa a se mexer sensualmente. Cobra venenosa, serpente gulosa, pronta pra destilar seu veneno. Veneno doce. Aqueles olhos de cigana, famintos, penetram o fundo da sua alma e parecem deixá-lo completamente nu. Seu olhar o despe sem pudor. Ela pega seu cigarro e o traga, como se estivesse tragando Tony. Os lábios gulosos não disfarçam sua sede. A fumaça separa suas bocas.
Uma mão máscula acaricia aquele rosto. O rosto de Tony. Os olhos dele são mais atraentes, penetram mais fundo. Os lábios dele são mais carnudos. Sua boca está sedenta, promete prazeres ocultos, prazeres proibidos. Ele queria usufruir o proibido. O corpo dele foi feito para Tony. O que podia fazer? Aquele corpo esculpido e másculo o atraía mais que o corpo quente e sinuoso da espanhola. A verdade é que o corpo dela não o atraía. Era sua alma, a culpada. Sua alma desejava a carne. Desejava um corpo idêntico ao seu
Não é o certo, diziam. Homem foi feito para mulher. Mulher para homem. Não é certo. Quem eles são para dizer o que é certo ou errado? Está na bíblia, diziam. Eu sou um pecador. Eu sou anormal. Eu sou um mutante. Eu sou uma vergonha. Os meus gostos são proibidos. A minha vontade é proibida. A sociedade dita seus gostos, suas preferências. Ela diz o que você deve enxergar, como deve agir. A sociedade dita o que você deve ser. Os monstros são os autênticos, os que assumem sua própria personalidade. Eles são errados, eles são pecadores. Porque não seguem o que a merda da sociedade diz ser certo. Perdoe-me, pai. Eu sou assim, mãe. Me perdoem se sou uma decepção. Um erro, talvez. Eu sou o que sou e não vou mudar. Nem esconder. Não vou deixar de ser autêntico por ninguém. Aceito a sina de ser o monstro, a anormalidade, a vergonha dessa tal sociedade. Hipócrita. Sociedade hipócrita.
Inspirado em uma cena de "Pecados Inocentes", drama dirigido por Tom Kalin.
