sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Me entende, me entende

Me entende, me entende
Eu preciso fugir
Preciso sumir
Pra longe, me entende

Não é que eu queira
Me afastar
Não é que eu queira
Me livrar

Eu preciso aprender
A me virar sozinha
Me entende
Compreende

Vai doer demais, eu sei
Mas viver, assim
A vida inteira eu tentei

Sempre soube
Que aqui não era meu lugar
Deixa, deixa pra lá
O que os outros vão pensar

Eu queria te levar comigo
Dentro de uma caixinha
Mas, amor, não dá
Me deixa, me deixa chorar

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

É para lá que eu vou

É para lá que eu vou


Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.


Minha, Clarice Lispector




domingo, 20 de dezembro de 2009

O inferno é o nosso presente.

Quantas pessoas seguem seus caminhos incertos, cegas, dizendo sempre "olá". Como se nada fizesse diferença. Sou a única a enxergar? Não sabemos distinguir o certo do errado. Não, sim... os contrários fazem o mundo. Amor, desamor. Alegria, tristeza. Qual o contrário de solidão? O tempo, meu amigo, não existe. É a desagregação da matéria. Evolução-mutação de tudo. Talvez o Tempo seja mais um Deus inventado. Confiemos no que não podemos ver, nem tocar. Amor também é Deus. E Deus castiga às vezes. Castigo necessário. "Morrer de amor e continuar vivendo". Presos ao nosso egoísmo, enquanto "irmãos" continuam morrendo. A perda é necessária para aprendermos a dar valor às coisas. Mas nunca damos. Você sabe, sabe bem, que tentamos conseguir a paz fazendo a guerra. É tudo confuso, essa náusea constante. Saber que o inferno é o nosso presente.


Patrícia Campidelli.